Depois de seis década de opções urbanísticas equivocadas e seis anos de irresponsabilidade administrativa, chegamos ao fundo do poço: a cidade entrou em colapso e seus horizonte é tão negro como o céu nos minutos que antecedem as chuvas de verão.
A correnteza que leva as sujeiras mal coletadas da cidade, no entanto, não é mais nojenta que o ar que circula nos gabinetes bem tratados da Câmara e da Prefeitura. Nestes espaços que custam fortunas – onde os problemas da cidade deveriam ser debatidos e equacionados, não circula o vírus que gera a leptospirose, mas imperam outros tipos de ratazanas mais espertas, que contaminaram a administração e a destruíram. Elas praticam tráfico de influência; venda de votos em troca de cargos; apropriação indébita dos salários de assessores; corrupção descarada.
Os vereadores já comprometidos e fiscais presos são apenas a ponta de um imenso iceberg que contém mais da metade da Câmara e boa parte do Executivo, totalmente contaminado a partir de 1993. Não que a corrupção seja recente. Mas nos governos em que as autoridades maiores estiverem vacinadas por princípios éticos e posturas firmes, o vírus não se propagou com liberdade e foi contido. Ao contrário, nos últimos anos, o meio foi extremamente favorável para o ilícito. A corrupção se institucionalizou.
Com as finanças falidas por Maluf – que realizou obras não por acaso caras e de pouca utilidade -, desprovida de um projeto de desenvolvimento econômico, sem proposta administrativa, estratégia urbanística e máquina operacional, nada pode hoje salvar São Paulo das desgraças cotidianas, expostas numa chuva forte. Pitta, sem credibilidade e dependente de uma Câmara desmoralizada, não tem capacidade e condições políticas de liderar o esforço necessário para repensar e recuperar a cidade que pede socorro.
Não adianta mais simplesmente criticar a atual administração e a anterior: isto virou assunto das colunas policiais. Precisamos de um amplo movimento para dar um novo rumo para a cidade, do ponto de vista urbanístico, econômico, administrativo e de representação legislativa. Os paulistanos já se deram conta que as instâncias instituídas – como Prefeitura, Câmara e Tribunal de Contas – estão apodrecidas e contaminadas e são incapazes de propor algo de novo porque estão comprometidas com a atual situação, apesar do esforço ético de uma parte da oposição.
É necessário envolver os cidadãos e suas entidades de base, com o apoio da mídia – que tem exercido um papel importante na denúncia da corrupção -, num amplo processo de discussão sobre a cidade, para erguer em bases totalmente novas o poder municipal. Propostas contundentes como a descentralização radical da Prefeitura, revisão geral da legislação urbanística, reestruturação completa do sistema viário, da drenagem urbana e dos transportes coletivos, mudança da estratégia de desenvolvimento urbano e econômico e criação de outras instâncias de representação, além da Câmara, entre outras idéias, precisam ser aprofundadas, num processo que recupere a credibilidade dos paulistanos de que sua cidade ainda pode se tornar agradável e viável para se viver.